quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

a inocência do medo

quando o medo me enfrentava o sono
e eu pequena me embalava
na solidão do ser
sem vestes ou subterfúgios
nem sentimento de gravidade
recolhia-me da robustez da noite
prenha mais de aranhas que de céu…
e sob o lençol bordado a paz
e rendas de luar
era eu, sem ser
forte e audaz!
eu, no ventre do Adamastor
que também chão
me labutava em receio e luz…

a madrugada era um navio
em viagem 3D
para a guerra do nunca
na lógica sem razão…

e bem fundo
adivinhava o estilhaço
dos meus joelhos trémulos
de inverno em solstício de breu…
e correndo, caía…
e voando, descia…
mas, importantes na ida
eram os meus sapatos….
sobre.
e as aranhas…
sob.
porque o retorno, esse…
eu sabia…
era sempre a noite posta
num beijo de mãe.
sonhado.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

FINJO-TE O OLHAR











Vejo no espelho dos teus
a simetria dos meus…
Observo,
e no verde me entrego,
em aconchego…
Sinto,
muito ao de leve,
o beijo breve…
E minto…

E finjo
que sei, sem que mo digas
E finjo
que sabes, sem que te fale…

Bordo nas tuas mãos
Gestos sem nãos…
Reservo
nos teus lábios o desenho
Dos beijos que tenho…
Absinto
da insana evidência
no peso da tua ausência…
E finto…

E finjo
A eminência da chegada
E esqueço
O fim, o vazio, o nada…

LUA












Esgueiro-me na madrugada
feita uma ingénua catraia,
no colo neve enlaçada,
nas mãos luar como alfaia.
Vou pratear pelas janelas
os sonhos por dentro delas.
Pela manhã ensaio o passo
nas pegadas que desfaço
no dia a alagar vielas…
Sou a Lua Tejo acima.
Louco enleio p’lo meu rio
que em cada esquina se anima
e se ateia em desvario.
Sopro Lisboa c’o a maré, nua,
suspirando em cada rua,
em cada estreia d'alvorada,
em cada gota à foz chegada,
porque o mar a anseia sua…
Sou também desta cidade
mulher, mãe que vela, encanta
todo o ente em liberdade
Sou da alma lume e manta.
Sou baixela de Lisboa,
consciência que povoa
cada mente enamorada.
Força e calma deslumbrada
Viagem com vento à proa…
Sou a Lua desfolhada
pelas mãos da madrugada…
Amor ao Tejo e a Lisboa
que o fado grato, apregoa…

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009









Recebi este selo como prémio da minha amiga Vony Ferreira (http://vony-ferreira.blogspot.com/) oferta que desde já agradeço. De acordo com as regras informo que: deverá ser atribuído só a mulheres; - copiar o prémio e colar no seu blog - fazer referência do meu nome e colocar o endereço do meu blog; - presentear seis mulheres cujos blogs sejam uma inspiração para si e - deixar um comentário nesses blogs para que saibam que ganharam o prémio. Assim sendo, e apesar da dificuldade aqui ficam os nomeados:

http://sentidoemmim.blogspot.com/

http://almacollins.zip.net/

http://cofreforte.blogspot.com/

http://maraoeste.info/

http://www.rosarinhoalves.info/

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

PASSOS












Queria sair de mim, e não me posso
Mordo-me de razão, de gesto agrume
Pois não se aparta assim a dor remorso
De não saber de ti amor queixume.

Queria ser menos eu e mais em ti
Saber-te todo aqui em concordata
Tacitamente impulso onde me vi
Nascer em novo grito ou acrobata…

Mas, perseguem-me loucos cães ferrados
Nestas canelas prenhas de longe além
E meus passos descaem descorados.

Sou só vontade a uivar pelos telhados
E se não sei de mim nem de ninguém
‘mor, tu não sabes nada de passados…

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

CULPA

Agora que não sei de ti me invento
Neste olhar de ternura revelada
Lembranças de outro dia meu sustento
Assim a caminhar por entre o nada…

A cada gesto teu em que me ausento
Sou salto, ensejo, fome incendiada
Mas volta sempre a mim o desalento
Que toda a tentativa é derrocada…

Onde andas espelho meu e meu castigo
Meu caminho de ausência atormentada
Que só me vejo em ti, desencontrada…

Vem, que em acaso o corpo que fustigo
É sem teu toque a ânsia desvairada
Na culpa de perder-te, em mim crivada…

sábado, 17 de janeiro de 2009

VERBO

Do verbo nada sei. Só o cuidado
revelar de um breve instante,
a medida certa de um recado
que nos agarra agora ou adiante….

Do verbo não falei. Fugi do fado
que consciência afia a dor distante
Quero antes o silêncio alucinado
das pedras, a quietude constante…

Do verbo não sei. Por isso arrimo
a cada palavra apenas outra afim
que diga a todos o que quer de mim.

O verbo é que me cava. E eu esgrimo.
Valente, ousada a voz que sai assim.
É dos outros no eco oprimido, o fim...