Basta-me
num pouco de mim
um pouco de ti.
Vivo nos teus olhos,
numa palavra tua.
O tempo se acaba
quando o amor se apronta
e o incerto desaba.
Aqui
no espanto de te querer
e te saber
toco o absoluto
do teu ser.
Mas
vivendo em mim
transbordas-me dos olhos
a cada instante
de ausência.
Presentes
somos
pranto adiado.
Mas amor,
sós,
nem sei porquê,
calamo-nos:
Que o tempo pede.
sábado, 12 de setembro de 2009
sábado, 11 de julho de 2009
Desaparecida em combate
Porque é que não ouço o meu próprio escárnio? Como sei de mim, do meu desfazer das horas paradas no meio do nada! Sei. E nesta consciência de nada valer insisto em falar às pedras já nem esperando marcá-las de vida própria, de sorrisos e versos de amor. Porque, a vida é um somar de nadas, um passar de sombras. Nada muda intrinsecamente, apenas o tempo e o espaço. Um sorriso é só um esgar, um movimento facial no tempo. A vida é uma imagem sorrateira nos meandros da morte. Um verso de amor é uma finta à inércia dos seres. Sei que nada mudará este vazio, este nada que sou, onde não caibo, mas de onde nunca me fui. Nesta incoerência me encontro e me sei desconhecida de mim, perdida no nada que me encontrou, desaparecida no meu próprio escárnio. Será que o escárnio é o meu verso de amor perdido? Aquele que cabe nos meus dias cheios de nada? De nada me valem os lábios para dizê-lo, que a palavra cai em cinzas nas sombras do vento e as folhas do meu livro seguem já o caminho do fim...
Desaparecido em combate
Estou aqui a conversar com a minha garrafa boca na boca. Ela sente-me na língua as palavras não ditas no amargo da tristeza que me vem do fundo. Foi só uma troca, um detalhe inútil e fútil, mas que leva as casas do tempo para deltas do desconhecido. Esta água que vou bebendo não me lava o que não chegou, nem substitui a dos meus olhos a escurecer no sentido contrário da madrugada que não acaba. Maldita espera dentro de mim. Qualquer dia apareço-me de repente já pronta para nadar na garrafa da desilusão e sair pelo gargalo da insanidade. Dizem que estou quase, mas um quase que já é, sem que mo digam. Será por pena, ou antes por escárnio, que é quase o mesmo, e mais certo que pedrada. Porque o silêncio é uma pedrada que se entranha na espera mais desesperada e mais alongada pela estratégia de quem quer sem querer. Engana-se o tempo saltando horários, rotinas. Um pouco mais. Está quase, é já ali, um som, um salto, um olhar, uma volta, espreitar, preparar, melhorar, sorrir, chorar, sorrir, ter fé, controlar, perder a força, querer sumir, desaparecer...estou quase lá, eu sei que estou quase e lá talvez te encontre....
quarta-feira, 17 de junho de 2009
CANÇÃO TERNURA
Se te perguntarem palavras diz que emudecemos
Porque queimámos a voz no corpo vivo
Derramámos os gestos e nos cedemos
Ao fim transitivo.
Se te perguntarem do amor diz que o que nos tece
Nasce da flor de fogo, do azul aventura
Do murmúrio encantado que acontece
Na canção ternura.
Se te perguntarem por nós diz que que nada somos
Só parte da noite, da brisa, da folha tremente
Que passámos, lutámos, ficámos e fomos
Como água corrente...
Porque queimámos a voz no corpo vivo
Derramámos os gestos e nos cedemos
Ao fim transitivo.
Se te perguntarem do amor diz que o que nos tece
Nasce da flor de fogo, do azul aventura
Do murmúrio encantado que acontece
Na canção ternura.
Se te perguntarem por nós diz que que nada somos
Só parte da noite, da brisa, da folha tremente
Que passámos, lutámos, ficámos e fomos
Como água corrente...
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Pétalas
aqueles dias meus de primavera,
em que o céu se pintava cor-de-rosa,
em ramalhetes de sol subindo a era
de meus pés a teus lábios ansiosa...
aqueles dias tão ditosos a adejar
em mim em ti como aves de sol-pôr
horizontes de mar e neste olhar
em nós o universo e todo o amor…
aqueles céus cá dentro, madrugadas
de azuis, trementes de luz, alienadas
no sentido que adentra nossos fados
entoam juras, são bíblias assinadas
são pétalas de afecto, lapidadas
no brilho dos eternos namorados…
em que o céu se pintava cor-de-rosa,
em ramalhetes de sol subindo a era
de meus pés a teus lábios ansiosa...
aqueles dias tão ditosos a adejar
em mim em ti como aves de sol-pôr
horizontes de mar e neste olhar
em nós o universo e todo o amor…
aqueles céus cá dentro, madrugadas
de azuis, trementes de luz, alienadas
no sentido que adentra nossos fados
entoam juras, são bíblias assinadas
são pétalas de afecto, lapidadas
no brilho dos eternos namorados…
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Silêncios de oiro
Eu olho-te nos olhos e sonho sem porquê
Com ramos de rosas, com sedas em festa
E tudo o que te guia, é um mar que se vê
Nos meus pés colhendo o vento e a giesta
E por onde vou, nem cardos, nem espinhos
Que de afecto abrigaste só para eu passar
E tenho a certeza que tu desejas sozinho
Recolher do céu o azul para mo entregar
Meu amor de cardos e espinhos, ausente
Meu nó de pedra, raro, meu imenso cais
Onde quero aportar, ser em ti catedrais
Abriga-te em mim, que eu em ti docemente
Usarei silêncios de oiro sem dor, e sem ais
E seremos o mundo, e no mais muito mais…
Com ramos de rosas, com sedas em festa
E tudo o que te guia, é um mar que se vê
Nos meus pés colhendo o vento e a giesta
E por onde vou, nem cardos, nem espinhos
Que de afecto abrigaste só para eu passar
E tenho a certeza que tu desejas sozinho
Recolher do céu o azul para mo entregar
Meu amor de cardos e espinhos, ausente
Meu nó de pedra, raro, meu imenso cais
Onde quero aportar, ser em ti catedrais
Abriga-te em mim, que eu em ti docemente
Usarei silêncios de oiro sem dor, e sem ais
E seremos o mundo, e no mais muito mais…
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Passa aqui que amanhã é tarde
Não sei por que razão a minha rua me persegue os calcanhares e me faz calos na memória. A pele da consciência já anda meia enrugada e nem de binóculos entendo o silêncio dos girassóis que, nas esquinas, teimam em virar luas.
Nunca mais me lembrei de fazer a poda das unhas e de pintar de verniz os arranhões que faço nas tuas árvores. Elas têm suado tanto que bebem o luar para que as folhas se vinguem das sombras rasas das minhas raízes.
Tenho o cheiro do vazio no saber, porque escureci nas pedras e não encontro a minha porta, nem os meus ombros.
Podia acender um girassol para iluminar os meus sapatos pendurados no quarto minguante, mas não encontro o interruptor nas cortinas do tempo.
A monotonia do cinza atrapalha-me o indicador direito que já não remexe os macaquinhos do meu sótão, esse desvão desigual dos passos que não dou, não rodam, nem viram.
Andar na minha rua é perder os dias das noites e os meus reencontros são ocasos falhados em contagem crescente.
Não caibo mais em mim de esquecimento…
Entendes? Passa aqui, que amanhã é tarde…
Nunca mais me lembrei de fazer a poda das unhas e de pintar de verniz os arranhões que faço nas tuas árvores. Elas têm suado tanto que bebem o luar para que as folhas se vinguem das sombras rasas das minhas raízes.
Tenho o cheiro do vazio no saber, porque escureci nas pedras e não encontro a minha porta, nem os meus ombros.
Podia acender um girassol para iluminar os meus sapatos pendurados no quarto minguante, mas não encontro o interruptor nas cortinas do tempo.
A monotonia do cinza atrapalha-me o indicador direito que já não remexe os macaquinhos do meu sótão, esse desvão desigual dos passos que não dou, não rodam, nem viram.
Andar na minha rua é perder os dias das noites e os meus reencontros são ocasos falhados em contagem crescente.
Não caibo mais em mim de esquecimento…
Entendes? Passa aqui, que amanhã é tarde…
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