atiro mais uma pedra
no charco desta saudade
deflagro-me em fúsil
estouro a bandeira do tempo
desato a guilhotina
no pescoço desta noite
e desfaço em tiras meus dias.
(porque não estás)
afinal
sou eu a única baixa
desta guerra
onde todos nasceram mortos.
(porque não estás)
e tudo o que vejo
são coisas cegas
vazias e sem memória
de nada vale espremê-las
não cedem à chantagem do amor.
(porque não estás)
mas tu, aí do alto
que tudo vês que tudo sabes
e inventaste um relógio
só para mim
afaga o meu caos na ilicitude
das horas paradas a repetir-me
em chuva ácida.
diz-me outra vez
da culpa que não tens.
(silêncio)
terça-feira, 24 de abril de 2012
estrelinha
com estrelas nos olhos
aconchego-te o corpo em segredo
enquanto tuas mãos desfolham noites
luas e escuridão.
levo-te contra vontade
sem que o saibas, pela mão
num esforço impossível
de parar o tempo
na calçada que é viver-te.
tempo que para ti não conta
nem se mede em horas
mas no tempo das marés
essas que te levam e trazem
ao aconchego da saudade.
doce tortura, num ápice
meus cabelos são mares
numa fábula de sim
nos sentidos mais que sê-los
só de olhares,
és tudo em mim…*.
aconchego-te o corpo em segredo
enquanto tuas mãos desfolham noites
luas e escuridão.
levo-te contra vontade
sem que o saibas, pela mão
num esforço impossível
de parar o tempo
na calçada que é viver-te.
tempo que para ti não conta
nem se mede em horas
mas no tempo das marés
essas que te levam e trazem
ao aconchego da saudade.
doce tortura, num ápice
meus cabelos são mares
numa fábula de sim
nos sentidos mais que sê-los
só de olhares,
és tudo em mim…*.
entre dois lábios
ainda que a palavra
seja o intervalo
entre dois lábios
e no ar
não haja sequer uma pena
lembra-te que ela voa
antes de ser dita,
é um parto sem dor
que chega
partindo-te
é pássaro por dentro
sorrindo-te
seja o intervalo
entre dois lábios
e no ar
não haja sequer uma pena
lembra-te que ela voa
antes de ser dita,
é um parto sem dor
que chega
partindo-te
é pássaro por dentro
sorrindo-te
sábado, 24 de setembro de 2011
ridículo o amor
há um nada burlesco cercador
na alma que se ri de si por rir
num tornar-se só do que hoje for
outro verso de dor por definir
outro canto já morto e perdedor
o tempo a rir gira um porém,
leva às costas uma bússola
e o chão de quem cai e não tem
prazo de sentir a grafonola:
esse nada que lhe resta e não tem cor
esta coisa ridícula de sentir - pior
este estado adentro de torpor - maior
esta dentridor de si a rir - o amor.
na alma que se ri de si por rir
num tornar-se só do que hoje for
outro verso de dor por definir
outro canto já morto e perdedor
o tempo a rir gira um porém,
leva às costas uma bússola
e o chão de quem cai e não tem
prazo de sentir a grafonola:
esse nada que lhe resta e não tem cor
esta coisa ridícula de sentir - pior
este estado adentro de torpor - maior
esta dentridor de si a rir - o amor.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
quadra para hoje
o uivílio varreja o lageiro
pairageado nas folheadas
mas nem gritadílios arrivam
nem escapitam orelhadas
pairageado nas folheadas
mas nem gritadílios arrivam
nem escapitam orelhadas
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
à beira-fome plantado
Como te dizer da chuva, fora da vidraça, se ela me inunda os ossos e me tolhe o movimento na humidade dos olhos. Como te dizer do sol se ele se esconde na vedação dos pomares onde nunca cresci, nas searas que nunca colhi, na água que me roubaram quando nasci. Como te dizer dos outros se nem de ti mãe eu lembro sequer as mãos. Como te dizer do futuro se nem sei escrever os dias e o meu pai é uma pedra que nunca vi. Como te dizer do amor se o meu coração dispara balas de fome e se vende a qualquer nome. A ponte onde moro é uma janela trucidada e as vistas enferrujaram até aos longes da minha infância. Sou o meu país órfão à beira-fome plantado.
quando me dá para escrever
há uma cidade louca dentro das palavras
que nasce prematura dentro de mim.
vou e quase chego já o dia vai a meio
e eu corro atrás mas a ponte é sem fim.
então vejo arder uma fogueira no contrário da sombra
que se move irada no canto das brasas,
e um rio que escorre na esquálida margem
de uns lábios que se abrem como asas.
e, ouço um sussurro, do que ao longe entendo,
eco de ideias que queimam crescendo,
e são os olhos, as mãos, as pernas correndo
à alta montanha do coração.
e há um sol que me aquece dos pés à razão
numa terra que se cobre de um verde liberto
onde pairam aves de infindas vitórias
e tenho árvores sempre novas num verbo desperto
lá no fundo da alma, à janela das memórias.
que nasce prematura dentro de mim.
vou e quase chego já o dia vai a meio
e eu corro atrás mas a ponte é sem fim.
então vejo arder uma fogueira no contrário da sombra
que se move irada no canto das brasas,
e um rio que escorre na esquálida margem
de uns lábios que se abrem como asas.
e, ouço um sussurro, do que ao longe entendo,
eco de ideias que queimam crescendo,
e são os olhos, as mãos, as pernas correndo
à alta montanha do coração.
e há um sol que me aquece dos pés à razão
numa terra que se cobre de um verde liberto
onde pairam aves de infindas vitórias
e tenho árvores sempre novas num verbo desperto
lá no fundo da alma, à janela das memórias.
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